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PUBLISH OR PERISH

QN, vol. 49, 2026

Alguns historiadores relatam que, na Roma antiga, quando os gladiadores entravam na arena falavam para o imperador “Ave, Caesar, morituri te salutant” (Salve, César, os que vão morrer te saúdam). Hoje, quando um jovem professor passa em um concurso em universidade pública, os seus colegas mais experientes dizem “publish or perish” (publique ou pereça). Será que foi sempre assim? Ora, quando terminei o meu doutorado, há 52 anos atrás, consegui submeter duas publicações. Foi um recorde na época. Quando fui contratado na Unicamp, depois de um pós-doc na Alemanha, há 48 anos atrás, ninguém me pressionou para publicar. A pressão era para dar aulas de muito alto nível. Bom, mas como era publicar naquela época? Consistia na seguinte “via crucis”: discutir com o orientado sobre o que publicar, montar um esqueleto do trabalho em português, datilografar um rascunho inicial da publicação completa em inglês já mais ou menos no formato exigido pela revista, revisar, revisar, revisar (o recorta e cola era real, com tesoura e cola), pedir a alguém para revisar o inglês (geralmente um colega), datilografar a versão final em 3 vias (usando papel carbono na máquina!), escrever uma carta ao editor tentando convencê-lo que o seu artigo deveria ser publicado naquele jornal científico, colocar tudo em um envelope e despachar pelo correio. Se a submissão era para uma revista americana deveria ser usado papel tamanho “letter”, se fosse para revista europeia usava-se papel A4, senão a submissão voltava. Daí a mais ou menos um mês vinha uma carta dizendo que seu trabalho foi recebido e submetido aos referees. Mais uns dois meses vinha a resposta: aceito direto, aceito com correções ou recusado. Sobre a primeira hipótese vou contar um caso mais abaixo.

Aceito com correções é o mais comum e é o melhor, porque se pode aproveitar as sugestões dos referees para melhorar o trabalho e resubmetê-lo. Mais um mês para vir a confirmação que a resubmissão foi recebida e reencaminhada para os referees. Mais dois meses de espera e vinha a resposta final, que poderia ser um “accepted” ou novas correções sugeridas por um referee mais chato. Depois de aceito, esperava-se mais um ou dois meses para receber as provas tipográficas para serem verificadas e, se necessário, corrigidas. Há um código de símbolos para serem usados nessas correções tipográficas. Depois de enviar as provas tipográficas corrigidas, era só esperar mais uns dois meses para ter o trabalho publicado e receber pelo correio as separatas. Se alguém se der ao trabalho de somar o tempo, vai chegar a um ano mais ou menos. Com todo esse trâmite, ninguém iria se dar ao trabalho de submeter um trabalho para publicação em periódico de ponta sem ter certeza de que era um trabalho bem-feito, inédito, com parte experimental perfeita, referências bem pesquisadas, etc. Ou seja, pouco importava o quanto se publicava, mas com a qualidade da publicação e do periódico. Na década de 80 do século passado apareceu a internet para uso civil. A evolução das comunicações tornou muito mais rápidos os processos de submissão, análise e publicação de um “paper”. Era já tudo feito via internet. Depois acabou o uso do papel, os periódicos científicos não são mais impressos. Como consequência, o custo de produção de um periódico diminuiu bastante. Passou a ser tudo online e acessível (mais ou menos). Com isso, o número de periódicos aumentou exponencialmente, uns bons e outros péssimos (do tipo pagou/publicou). Com essa agilização ficou mais fácil publicar em menos tempo e apareceu a corrida ao número de publicações, sem a devida preocupação com a qualidade. Apareceu a “publicação salame” (fatiar os resultados em vários artigos), as fraudes, as cópias, os plágios, etc. Hoje, o que é mais correto cientificamente, publicar um artigo em um periódico de ponta que vai ter 500 citações positivas ou publicar 20 artigos que terão 5 citações cada um? Sou da opinião que a primeira hipótese é o melhor. O desafio continua, “publique ou pereça”, mas devemos publicar trabalhos de alta qualidade em periódicos de alto impacto. É claro que muitos manuscritos são rejeitados na primeira submissão com muitas desculpas: fora do escopo da revista, muito longo, muitas figuras ou tabelas, etc. Ou então, morremos de raiva porque o editor mandou de volta com a justificativa que a publicação foi recomendada por 2 referees e rejeitada por 1 referee. Se tivermos a convicção que o trabalho é bom mesmo, a melhor política é dar um tempo depois de receber a resposta para pensar na melhor estratégia. Aproveitar as sugestões dos referees é uma boa estratégia porque melhora o trabalho.

Existem muitos tipos de respostas de editores, algumas bem bizarras. Já aconteceu de um editor inglês devolver uma submissão nossa porque havíamos incluído um renomado pesquisador inglês entre os coautores. Ele achou que o havíamos incluído à revelia só para valorizar o trabalho. Acontece que o meu orientado havia passado 6 meses na Inglaterra trabalhando com o tal renomado pesquisador e tínhamos a obrigação de inclui-lo entre os coautores. Teve o editor de um periódico da área de fotoquímica que me mandou um e-mail se desculpando da demora da resposta porque ele havia se divorciado e estava com a vida muito complicada.

Agora, o “causo” do meu único paper aceito direto. Quando pesquisávamos sobre polímeros condutores, na década de 80 e 90 do século passado, submetíamos os nossos trabalhos ao Synthetic Metals, periódico líder nessa área. Era a época que americanos e chineses estavam começando a interagir cientificamente e os trabalhos dos chineses pareciam fluir com muito pouco escrutínio por parte da revista. Encontrei então o editor dessa revista em um congresso e, entre uma cerveja e outra, o critiquei por isso. Por coincidência submetemos um trabalho logo depois que voltei do congresso. Foi uma surpresa, o trabalho foi aceito um dia depois de ter chegado nas mãos do editor (received day x, accepted day x + 1). Crítica aceita, revisão feita em tempo recorde (pelo próprio editor?) e aceitação enviada. Dos 265 trabalhos que publiquei, foi o único que foi aceito direto, sem sugestões ou correções. Bom, não aconselho a ficar por aí brigando com os editores por causa disso.

Embora poucos se lembrem disso, quando os periódicos da SBQ foram criados submeti imediatamente um trabalho porque acreditei que se tornariam importantes. Publiquei um trabalho no primeiro número da Química Nova1 e no primeiro número do Journal of the Brazilian Chemical Society (JBCS).2 O tempo passou, os periódicos se consolidaram e a sociedade esqueceu daqueles que a apoiaram no começo.

Uma coisa é certa, um trabalho científico só tem valor se for divulgado para que a comunidade o conheça e possa se desenvolver cientificamente a partir dele. Portanto “publique ou pereça”. Mas, deve-se publicar trabalhos de alto nível em periódicos idem.

Marco Aurelio De Paoli

Instituto de Química, Universidade Estadual de Campinas,
13083-970 Campinas – SP, Brasil

https://orcid.org/0000-0002-3813-3293

Referências

  1. De Paoli, M. A.; Rodrigues, C. F.; Quim. Nova 1978, 1, 16. [Link]
    acessado em março 2026
  2. De Paoli, M.-A.; Peres, R. C. D.; Pernaut, J. M.; J. Braz. Chem. Soc.
    1990, 1, 50. [Crossref]

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