

QN, vol. 49, 2026
A 49ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química, realizada em Campinas, em junho de 2026, teve como tema central “Química para a Soberania Nacional”. Nesse contexto, o workshop “Gerenciamento de Resíduos e Áreas Contaminadas” reuniu pesquisadores e profissionais com atuação na academia, no setor público e na iniciativa privada para discutir uma agenda ambiental estratégica para o nosso país. A programação articulou temas como investigação ambiental, (hidro)geoquímica e transporte de contaminantes em aquíferos, tecnologias sustentáveis para remediação de metais e substâncias per- e polifluoroalquiladas (PFAS) no gerenciamento de áreas contaminadas. Mais do que reunir exposições técnicas, o encontro evidenciou que resíduos e áreas contaminadas representam desafios científicos, regulatórios, tecnológicos e institucionais diretamente relacionados à proteção ambiental, à saúde pública e à soberania nacional.
A ideia de soberania ambiental, nesse campo, não deve ser compreendida como uma expressão abstrata ou meramente política. Trata-se da capacidade concreta de um país identificar, compreender, monitorar, regular, prevenir e recuperar seus passivos ambientais com base em ciência robusta, infraestrutura analítica local, profissionais
qualificados, marcos normativos consistentes e tecnologias apropriadas à sua realidade.
Nesse sentido, a Química ocupa posição estruturante fundamental. É por meio dela que se identificam substâncias, quantificam-se suas concentrações, interpretam-se transformações ambientais, avaliam-se persistência, mobilidade, biodisponibilidade, toxicidade e rotas de exposição. A análise química sustenta a classificação de resíduos, a investigação de áreas contaminadas, a avaliação de risco, a seleção de tecnologias de remediação e a formulação de instrumentos regulatórios. Contudo, o papel da Química não se restringe meramente à geração de dados laboratoriais. Ela também permite compreender processos geoquímicos, toxicológicos e tecnológicos que dão materialidade às decisões ambientais. Sem capacidade química instalada, não há diagnóstico confiável; sem diagnóstico confiável, não há gestão ambiental efetiva.
A apresentação de abertura do workshop ressaltou um ponto central para essa discussão: simplesmente aceitar de forma acrítica metodologias externas, sem avaliar sua adequação à realidade brasileira ou sem desenvolver alternativas locais, pode inviabilizar análises importantes e transformar o país em mero reprodutor de tecnologias estrangeiras. A academia, os órgãos ambientais, e demais players precisam atuar para identificar lacunas, propor adaptações, validar métodos e construir soluções tecnicamente defensáveis para os nossos contextos ambientais. A soberania científica não se opõe ao diálogo internacional; ao contrário, exige capacidade de apropriação crítica, adaptação metodológica e inovação aplicada. Importar conhecimento é necessário, mas insuficiente. O desafio é transformá-lo em capacidade nacional.
Um dos eixos debatidos no workshop foi a investigação ambiental de áreas contaminadas. Investigar uma área não significa apenas instalar poços de monitoramento, coletar amostras e comparar resultados com tabelas de referência. Embora esses procedimentos sejam relevantes, eles só adquirem sentido quando inseridos em um modelo conceitual consistente.1 Assim, a investigação ambiental exige a compreensão integrada das fontes de contaminação, das substâncias químicas de interesse, dos meios impactados, das características do meio físico, das unidades hidroestratigráficas, das vias de transporte, dos receptores e dos cenários de exposição.
A contaminação de aquíferos amplia significativamente essa complexidade. As águas subterrâneas constituem recurso estratégico para abastecimento humano, industrial e agrícola, mas ainda são insuficientemente integradas à gestão de áreas contaminadas no Brasil. A geoquímica e o transporte de contaminantes em aquíferos demonstram que a contaminação subterrânea não pode ser interpretada apenas como um problema localizado no terreno investigado. Heterogeneidade geológica, fluxo advectivo, dispersão, difusão, presença de fases livres ou residuais, reações redox, adsorção, precipitação e misturas de contaminantes influenciam o comportamento das plumas de contaminação e a persistência dos impactos. Solventes clorados, hidrocarbonetos, metais, PFAS e outros compostos podem alcançar poços de abastecimento e gerar riscos de longa duração. Logo, a gestão ambiental precisa dialogar de forma mais efetiva com a gestão de recursos hídricos, o licenciamento e a saúde pública.
Outro eixo fundamental foi o desenvolvimento de tecnologias sustentáveis para remediação, especialmente em áreas impactadas por metais potencialmente tóxicos. Elementos como cádmio, cromo, níquel, chumbo, arsênio, mercúrio e zinco apresentam persistência ambiental e podem comprometer solos, águas, organismos e cadeias tróficas. Nesse cenário, estratégias como biossorção e fitorremediação ampliam o repertório tecnológico disponível, especialmente quando combinam biomassa, microrganismos, resíduos agroindustriais e sistemas assistidos por bactérias promotoras de crescimento vegetal. Tais alternativas podem oferecer menor custo, menor geração de resíduos secundários e maior aderência aos princípios da sustentabilidade. Entretanto, sua consolidação depende de pesquisa aplicada, escalonamento, avaliação em matrizes ambientais complexas, critérios de eficiência, mecanismos de regeneração e integração com estratégias de economia circular.
A discussão sobre PFAS evidenciou a fronteira contemporânea dos contaminantes emergentes. Os PFAS desafiam os modelos convencionais de monitoramento, regulação e remediação devido à sua elevada estabilidade química, persistência ambiental, mobilidade, diversidade estrutural, potencial de bioacumulação e alta relevância ecotoxicológica mesmo em baixas concentrações.2 Em contexto brasileiro, esse debate ganha especial relevância diante das lacunas de monitoramento sistemático, da necessidade de métodos analíticos sensíveis e da urgência em compreender fontes difusas, rotas de transporte e impactos potenciais sobre aquíferos urbanos.
Essas discussões convergem para um diagnóstico inequívoco: o Brasil precisa fortalecer sua governança técnico-científica em resíduos e áreas contaminadas, ampliando a capacidade laboratorial, qualificando recursos humanos, harmonizando bases de dados, desenvolvendo sistemas de priorização, atualizando instrumentos normativos e integrando academia, órgãos ambientais, indústria, serviços de saneamento, gestores de recursos hídricos e sistema de saúde. A complexidade dos problemas ambientais contemporâneos não admite respostas fragmentadas: a gestão de resíduos exige não geração, redução, reuso, segregação, reciclagem, tratamento, disposição ambientalmente adequada e avaliação de ciclo de vida, enquanto a gestão de áreas contaminadas requer investigação robusta, avaliação de risco, comunicação transparente, controle institucional, remediação proporcional ao risco e acompanhamento de longo prazo.
Há, portanto, uma agenda formativa e institucional a ser assumida pela comunidade química brasileira. Universidades, programas de pós-graduação, sociedades científicas e órgãos públicos devem contribuir para transformar conhecimento científico em capacidade operacional, regulatória e tecnológica. O workshop demonstrou que a Química brasileira possui competência para exercer protagonismo nessa agenda, pois proteger solos, águas superficiais e subterrâneas, sedimentos, biota e populações humanas é também proteger a soberania ambiental do país.
aInstituto Estadual do Ambiente, 20081-312 Rio de Janeiro – RJ, Brasil
bPrograma de Pós-Graduação em Ciências do Meio Ambiente, Universidade Veiga de Almeida, 20271-020 Rio de Janeiro – RJ, Brasil
https://orcid.org/0000-0002-0353-3174
cCentro Universitário SENAC, 04696-000 São Paulo – SP, Brasil
https://orcid.org/0000-0002-2033-2411
dInstituto de Geociências, Universidade de São Paulo, 05508-080 São Paulo – SP, Brasil
https://orcid.org/0000-0002-9470-4716
eDepartamento de Biotecnologia Agropecuária e Ambiental (DBTAA), Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), Universidade Estadual Paulista (UNESP), 14884-900 Jaboticabal – SP, Brasil
fPrograma de Pós-Graduação em Microbiologia Agropecuárias, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), Universidade Estadual Paulista (UNESP),
14884-900 Jaboticabal – SP, Brasil
https://orcid.org/0000-0003-3853-7957
gDepartamento de Química, Universidade Federal de São Carlos, 13565-905 São Carlos – SP, Brasil
https://orcid.org/0009-0006-0124-5394
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