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Dez Anos Depois: Qual é o Legado do PROFQUI-RJ na Formação de Professores?

Ten Years Later: What is the Legacy of PROFQUI-RJ in Teacher Training?

RVq, vol. 18, No. 03, 2026

O diagnóstico dos problemas da educação brasileira é amplamente conhecido, permanece atual e urgente. Entre os principais entraves ao avanço educacional, destacase a persistente desvalorização do magistério, tanto no âmbito financeiro quanto no reconhecimento social da profissão docente.

Além disso, as condições de trabalho são frequentemente precárias: escolas com infraestrutura insuficiente, escassez de recursos didáticos e fragilidade nas políticas de valorização profissional. Esse conjunto de fatores ajuda a explicar a elevada evasão nos cursos de licenciatura, que atinge mais de dois terços dos estudantes em áreas
estratégicas como Química, Física e Matemática.1 Trata-se de um quadro que se reproduz, com poucas variações, na maioria dos estados brasileiros.

Outra questão relevante é a crescente pressão por indicadores quantitativos positivos, especialmente aqueles que refletem no aumento das taxas de aprovação, sem levar em conta a aprendizagem efetiva dos estudantes. Assim, foram criadas políticas de flexibilização da progressão escolar que, embora não sejam oficialmente denominadas “aprovação automática”, acabam reproduzindo, na prática, seus efeitos.2

Em 2025, foram estabelecidas novas diretrizes educacionais, implementadas a partir do ano letivo de 2026, em resposta ao período de flexibilizações adotado durante a
pandemia de COVID-19. As mudanças propõem maior rigor em aspectos como frequência, avaliações e desempenho escolar. No entanto, essas diretrizes ainda coexistem com a manutenção de políticas de progressão parcial, que continuam permitindo o avanço de estudantes com múltiplas reprovações, desde que submetidos a processos de recuperação.3

No Rio de Janeiro, essa questão assume contornos particularmente delicados, pois, apesar das medidas recentes que primam por maior rigor nos processos de avaliação e desempenho escolar, o atual governo do estado ainda mantém práticas de progressão escolar que permitem a estudantes do Ensino Médio avançarem de série mesmo acumulando reprovação em até seis disciplinas.4-6 A isso se soma a sobrecarga imposta ao professor, que, nos termos da Resolução SEEDUC nº 6303/2024, deve elaborar planos especiais de estudo, relatórios de habilidades não
desenvolvidas e múltiplas estratégias de recomposição da aprendizagem, tudo sem qualquer alívio na sua carga horária ou nas condições de trabalho.7 Tal política parece sustentar-se na ilusória ideia de que, assim, se garante a permanência do aluno na escola. Ou, o que seria ainda mais grave, revela-se a intenção de mascarar as fragilidades da formação dos estudantes nas instituições de ensino do Rio de Janeiro.
Podemos nos perguntar, ao pensar no universo fluminense: de que adianta manter o aluno na escola se não há garantia de aprendizagem? E, diante desse cenário, qual é o caminho possível para transformar, de fato, essa realidade?

Não há respostas simples para essas questões. O que se impõe, sem dúvida, é a necessidade de políticas públicas educacionais concebidas como políticas de Estado, e não de um governo passageiro, a fim de garantir sua continuidade e estabilidade ao longo dos anos. Entre tantas ações necessárias, investir na formação docente, assegurando aos professores a possibilidade de continuidade de seus estudos para além da licenciatura, emerge como um elemento-chave na atualização pedagógica e na construção da identidade profissional.

Nesse sentido, os programas de pós-graduação voltados para professores da educação básica, especialmente os mestrados profissionais em rede, representam uma ação concreta para contribuir com a melhoria do processo ensino-aprendizagem, a partir do fortalecimento formativo do professor e de novas ferramentas didáticas. Ao articular teoria e prática, esses programas permitem que o conhecimento acadêmico se traduza em transformação real da prática pedagógica, bem como do desempenho dos estudantes e de toda a sociedade escolar.8

O Programa de Mestrado Profissional em Química em Rede Nacional (PROFQUI) é  um exemplo emblemático desse movimento. Com 22 Instituições Associadas (IAs), distribuídas pelas cinco regiões do Brasil, e voltado à formação continuada de professores de Química, o programa tem produzido resultados que vão além da qualificação individual, gerando um efeito multiplicador. A titulação de um único mestre ecoa em múltiplas dimensões: incentiva outros docentes a cursarem o mestrado, mesmo que de áreas distintas da Química, impacta na aprendizagem dos seus alunos, alcançando suas famílias, a comunidade no entorno e quiçá, dependendo da natureza do trabalho desenvolvido, pode ainda repercutir em diferentes regiões do Brasil.9

Após 10 anos de implementação, o PROFQUI titulou mais de 670 mestres em todo o país. No estado do Rio de Janeiro, considerando as três IAs (UFRJ, UFRRJ e UFF), foram formados 122 mestres desde a primeira turma, iniciada em 2017. Atualmente, as três instituições somam 67 mestrandos matriculados. Cada um desses professores titulados e em formação contribuiu, ou está prestes a contribuir, não apenas com a sua dissertação formal, mas também com o desenvolvimento de um recurso  educacional voltado a professores e estudantes da educação básica. Dessa forma, torna-se clara a dimensão do impacto individual e coletivo do PROFQUI no estado do Rio de Janeiro.10

Certamente, um dos principais legados do programa reside na produção desses recursos educacionais, como jogos, aplicativos, sequências didáticas, materiais inclusivos, entre outros, disponibilizados de forma livre e gratuita. Assim, o programa contribui para a democratização do acesso ao conhecimento e impulsiona a inovação das práticas pedagógicas no país. Em 2021, a Revista Virtual de Química (RVq) publicou um número especial dedicado aos trabalhos desenvolvidos por docentes e discentes no âmbito do PROFQUI de quatro IAs (UFRJ, UFRGS, UFTM e UFRN), abrangendo as regiões Sul, Sudeste e Nordeste.11

O presente número especial da RVq resulta dos esforços específicos das IAs do estado do Rio de Janeiro e reúne resultados de pesquisas voltadas à produção de jogos, experimentação, elaboração de vídeos, desenvolvimento de recursos de inclusão, uso de tecnologias digitais e projetos visuais, organização de sequências didáticas, entre outras, aplicadas em turmas escolares das redes de ensino estadual e privada do RJ. As temáticas abordadas para o ensino contextualizado são variadas, incluindo química sustentável, insetos, acidentes químicos, incêndios, fármacos e química
da saúde.

O PROFQUI-RJ agradece imensamente à editoria da RVq pela oportunidade de publicar este número especial, que representa uma amostra da contribuição das instituições participantes para a melhoria da educação no estado, dez anos após a implementação do programa. Embora ainda não seja possível apresentar respostas imediatas para os desafios educacionais do Rio de Janeiro, o PROFQUI segue cumprindo seu papel, ao proporcionar uma formação continuada de qualidade, impactando trajetórias e transformando vidas.

Bárbara V. Silvaa

aUniversidade Federal do Rio de Janeiro, Ilha do Fundão, Centro de Tecnologia, Instituto de Química, CEP 21941-909, Rio de Janeiro-RJ, Brasil

https://orcid.org/0000-0002-3020-9310

Fernanda Arruda Nogueira Gomes da Silvaa

aUniversidade Federal do Rio de Janeiro, Ilha do Fundão, Centro de Tecnologia, Instituto de Química, CEP 21941-909, Rio de Janeiro-RJ, Brasil

https://orcid.org/0000-0001-8398-9974

Daniella Rodrigues Fernandesa

aUniversidade Federal do Rio de Janeiro, Ilha do Fundão, Centro de Tecnologia, Instituto de Química, CEP 21941-909, Rio de Janeiro-RJ, Brasil

https://orcid.org/0000-0001-7028-3374

Danielle Maria Perpétua de Oliveiraa

aUniversidade Federal do Rio de Janeiro, Ilha do Fundão, Centro de Tecnologia, Instituto de Química, CEP 21941-909, Rio de Janeiro-RJ, Brasil

https://orcid.org/0000-0002-9889-5556

Michelle Jakeline Cunha Rezendea

aUniversidade Federal do Rio de Janeiro, Ilha do Fundão, Centro de Tecnologia, Instituto de Química, CEP 21941-909, Rio de Janeiro-RJ, Brasil

https://orcid.org/0000-0002-8282-6636

Referências

  1. Queiroz, C.; Precisa-se de Professores. Revista Pesquisa FAPESP 2023, 332, 13. [Link]
  2. Brito Júnior, D.; A progressão continuada como política pública educacional e a prática docente: um brevíssimo relato sobre o distanciamento entre a teoria e a prática. Cadernos da Fucamp 2022, 21, 63. [Link]
  3. Câmara dos Deputados. Comissão aprova projeto que proíbe escolas de promover alunos que não têm nota para passar de ano. Disponível em: <https://www.camara.leg.br/noticias/1180586-comissao-aprova-projeto-que-proibe-escolas-de-promoveralunos-que-nao-tem-nota-para-passar-de-ano>. Acesso em: 21 maio 2026.
  4. Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro. Decreto Estadual n.º 49.994 de 17/11/2025. Disponível em: <https://biblioteca.pge.rj.gov.br/scripts/bnweb/bnmapi.exe?router=upload/134394>. Acesso em: 20 maio 2026.
  5. G1. Nova regra de aprovação no ensino médio da rede estadual do RJ gera debate entre especialistas. Disponível em: <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/12/09/nova-regra-deaprovacao-no-ensino-medio-da-rede-estadual-do-rj-gera-debateentre-especialistas.ghtml>. Acesso em: 21 maio 2026
  6. G1. Nova regra no Ensino Médio da rede estadual do RJ permite avanço de série com até 6 matérias reprovadas. Disponível em <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/11/25/novaregra-no-ensino-medio-da-rede-estadual-do-rj.ghtml>. Acesso em: 21 maio 2026.
  7. Resolução SEEDUC nº 6303, de 08 de novembro de 2024. Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, nov. 2024.
  8. CAPES. Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu para Qualificação de Professores da Rede Pública de Educação Básica (ProEB). Disponível em <https://www.gov.br/capes/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/articulacao-e-inovacaoem-educacao-aberta/programa-de-pos-graduacao-stricto-sensupara-qualificacao-de-professores-da-rede-publica-de-educacaobasica-proeb>. Acesso em: 21 maio 2026.
  9. PROFQUI. Relatórios de autoavaliação. Disponível em: <https://profqui.iq.ufrj.br/autoavaliacao/>. Acesso em: 20 maio 2026.
  10. PROFQUI. Disponível em: <https://profqui.iq.ufrj.br/>. Acesso em: 20 maio 2026.
  11. Silva, B. V.; Pinto, B. P.; Almeida, M. R.; Rezende, M. J. C.; Santos, N. D.; Contribuições do PROFQUI aos esforços para melhoria da Educação Básica em Química no Brasil. Revista Virtual de Química 2021, 13, 593. [Crossref]

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