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Ciência Não Combina com Negligência, Imperícia ou Imprudência

Science Does not Mix with Negligence, Incompetence or Recklessness

RVq, vol. 18, No. 02, 2026

A palavra negligência, segundo o dicionário, refere-se à ausência de cuidado, atenção ou diligência no cumprimento de uma obrigação. Trata-se de uma omissão, isto é, da não realização de uma ação esperada, frequentemente resultando em consequências graves. Casos recentes de negligência podem ser observados em diversas áreas, como na indústria, por meio de falhas na manutenção de equipamentos, e também no cotidiano, quando normas básicas de segurança são desconsideradas. No ambiente laboratorial, por exemplo, configuram-se como atos negligentes a ausência de verificação das condições de extintores, tomadas e conectores, bem como a obstrução de saídas de emergência.

Um caso de grande repercussão nacional na indústria cervejeira envolveu a ingestão de cervejas contaminadas com etilenoglicol, em decorrência do vazamento de um equipamento que utilizava esse composto como fluido refrigerante. Tal situação pode ser caracterizada como negligência quanto à manutenção adequada do equipamento e à realização de testes de qualidade.

A imprudência, por sua vez, é definida como a realização de ações de forma  precipitada e sem a devida cautela, sendo caracterizada por comportamentos de risco adotados sem a consideração adequada de suas possíveis consequências. Diferentemente da negligência, a imprudência envolve uma ação, porém marcada pela irresponsabilidade. Esse tipo de conduta é frequentemente observado no trânsito, com motoristas que desrespeitam limites de velocidade ou dirigem sob efeito de álcool, bem como em ambientes de trabalho nos quais protocolos de segurança são deliberadamente ignorados. No laboratório de química, a imprudência pode se manifestar na não utilização de equipamentos de proteção individual (EPI) ou na manipulação de substâncias tóxicas fora da capela de exaustão. Um exemplo amplamente conhecido refere-se aos rompimentos de barragens em Minas Gerais, que ainda suscitam debates acerca de suas causas, podendo ser associados à imprudência caso se confirme que os riscos eram previamente conhecidos e, ainda assim, desconsiderados.

No que se refere à imperícia, esta diz respeito à ausência de habilidade técnica ou de
conhecimento específico necessário para a execução de determinada atividade. Trata-se de uma condição comum em situações nas quais profissionais atuam sem a devida qualificação, resultando em erros potencialmente evitáveis. Casos de imperícia podem ser observados em procedimentos médicos inadequadamente executados, no uso incorreto de tecnologias ou na manipulação indevida de substâncias perigosas. Em ambientes laboratoriais, assim como em outros contextos profissionais, essa condição pode ocorrer quando tarefas são atribuídas a indivíduos sem a capacitação necessária. No caso do rompimento das barragens de Brumadinho, há alegações de falhas na análise de dados e relatórios, o que pode caracterizar imperícia por parte da equipe técnica envolvida.

Há, ainda, registros históricos de negligência, imprudência e imperícia no próprio campo científico, os quais servem como importantes lições para a prevenção de ocorrências semelhantes. Alfred Nobel, ao tentar estabilizar a nitroglicerina, provocou uma explosão em seu laboratório, resultando na morte de diversas pessoas, incluindo seu irmão. Louis Slotin, físico envolvido no Projeto Manhattan, faleceu após exposição letal à radiação ao usar uma ferramenta inadequada para separar duas peças que impediam a reação em cadeia em um núcleo de plutônio. Marie Curie, por sua vez, desenvolveu uma forma de anemia decorrente da exposição prolongada à radiação, cujos efeitos ainda eram desconhecidos à época de suas pesquisas. Esses episódios evidenciam os riscos associados à ausência de conhecimento, ao descuido e à adoção de práticas inadequadas.

No contexto contemporâneo, quando já se dirigiu automóveis sem o uso de cinto de
segurança, ou pilotou motocicletas sem capacete, vendiam-se brinquedos com bolinhas de mercúrio ou ainda tintas com chumbo. Diversos erros foram e ainda podem ser atenuados com o avanço da ciência, em especial da química. Destaca-se, nesse sentido, a busca por tratamentos eficazes para doenças como a Doença de Chagas, a Leishmaniose e a Esquistossomose, classificadas como “Neglected Diseases” (doenças negligenciadas). Além disso, questões como a fome, a miséria, o aquecimento global e a necessidade de fontes renováveis de energia configuram-se como problemas urgentes, cujos impactos são mais intensamente sentidos em países em desenvolvimento, onde há maior concentração de populações em situação de vulnerabilidade e que não devem ser negligenciados.

Diante desse cenário, a ciência desempenha papel fundamental tanto na prevenção quanto na mitigação desses problemas. Por meio da pesquisa, do desenvolvimento
tecnológico e da disseminação do conhecimento, torna-se possível estabelecer protocolos mais seguros, aprimorar métodos de análise de risco e desenvolver ferramentas capazes de reduzir a ocorrência de erros associados à negligência, à imprudência e à imperícia. Investir em ciência, portanto, constitui uma estratégia indispensável para a redução de erros humanos e para a construção de uma sociedade mais segura, consciente e sustentável.

Heveline Silvaa

aUniversidade Federal de Minas Gerais, Instituto de Ciências Exatas, Departamento de Química, CEP 31270-901, Belo Horizonte-MG, Brasil

https://orcid.org/0000-0003-3537-4961

Referências

  1. Nobel Prize. Alfred Nobel’s Industrial Activities in Vinterviken. Disponível em: <https://www.nobelprize.org/alfred-nobel/alfrednobels-industrial-activities-in-vinterviken/>. Acesso em: 14 abril 2026.
  2. National Museum of Nuclear Science & History. Atomic Accidents. Disponível em: <https://ahf.nuclearmuseum.org/ahf/history/atomic-accidents/>. Acesso em: 14 abril 2026.
  3. Nobel Prize. Marie Curie. Disponível em: <https://www.nobelprize.org/stories/women-who-changed-science/mariecurie/>. Acesso em: 14 abril 2026.

Link- Licença CC-BY

Esta obra é de autoria de Waldomiro de Deus (BA, SP, GO) “O Batismo” (87), óleo s/ tela. 60 cm x 50 cm