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Reflexões Sobre o Encontro de Coordenadores de Pós-Graduação em Química na 48a Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química

Reflections on the Meeting of Postgraduate Chemistry Coordinators at the 48th Annual Meeting of the Brazilian Chemical Society

RVq, vol. 18, No. 01, 2026

A sociedade clama por modificações estruturais na educação brasileira, em decorrência dos números desastrosos que são observados nas avaliações nacionais da educação. Apesar das mazelas da educação básica, nosso sistema de pós-graduação (PG) é sólido há várias décadas e segue padrões internacionais, fortemente influenciado pelo programa nacional de iniciação científica (IC) — um sucesso mundial absoluto, consolidado no final do século passado.

Entretanto, a pós-graduação brasileira sofre, há muitos anos, com severos e progressivos cortes de fomento, o que resultou na drástica redução do número de  bolsas de agências federais e estaduais, bem como na deterioração da infraestrutura dos laboratórios de pesquisa nas universidades espalhadas pelo país. O colapso no ingresso de estudantes na PG vem sendo a tônica das últimas reuniões de coordenadores de programas de pós-graduação (PPG) da Sociedade Brasileira de Química (SBQ) e, em 2025, foram levantadas algumas questões centrais — três delas serão abordadas neste editorial.

Neste contexto, marcado por causas nem sempre bem esclarecidas, surge um primeiro questionamento: muitos jovens brasileiros iniciam sua trajetória científica ainda na graduação, em laboratórios de pesquisa de boa qualidade, trabalhando em áreas multidisciplinares, como é característico da ciência moderna e certamente da Química deste século. Por que, então, mantemos cursos de pós-graduação engessados, baseados na divisão clássica das áreas de química, como a orgânica, inorgânica, físico-química e analítica ou apenas disfarçadamente reorganizados? Seriam os vícios dos feudos departamentais das universidades?

A reestruturação de disciplinas no âmbito da graduação e da pós-graduação, considerando a pluralidade e a interdisciplinaridade da química moderna, deve apoiar-se em disciplinas formadoras com conceitos integrados, o que permitiria a convergência destas subáreas. Essa estratégia pode romper o paradigma dos “conceitos encaixotados” e estimular uma visão mais crítica em relação aos fundamentos científicos e mais adaptada à complexidade do mundo real.

Paralelamente, observa-se que muitos PPGs caminham para a especialização excessiva de suas disciplinas, buscando atender as diretrizes atuais da CAPES. Esta tendência responde à necessidade de modernização apontada pela Agência, mas ao mesmo tempo aumenta a defasagem na formação sólida conceitual que só é alcançada na PG. Surge, então, um segundo questionamento: como aprofundar, de forma integrada, os conceitos fundamentais da ciência já na graduação, considerando a carência de pensamento científico e social decorrente de profundas lacunas na formação básica? Tais lacunas estendem-se desde o subvalorizado e precarizado ensino na primeira infância até um ensino médio que tem aprofundado desigualdades entre o ensino público e o privado.

Em terceiro lugar, voltamos à questão do fomento: o auge da concessão de bolsas de mestrado e doutorado concedidas pela CAPES foi em 2015, coincidindo com o programa “Ciência Sem Fronteiras”. A partir daí observa-se uma tendência de queda e, atualmente, apenas 37% dos discentes são atendidos por estas bolsas.

No último encontro de coordenadores de PG na 48ª RASBQ, em 2025, em Campinas-SP, recebemos a visita do professor Antonio Gomes de Souza Filho, da UFC, diretor de avaliação da CAPES. De fala franca e provocativa, foi transmitido um claro recado da CAPES quanto à necessidade dos PPGs se adequarem à nova realidade de restrição orçamentária. Cabe ressaltar que a Agência mantém uma meta clara de continuar chacoalhando as regras da avaliação quadrienal na Plataforma Sucupira, apesar de ausência de dinheiro e das dificuldades impostas aos PPGs e as universidades provocadas por esta realidade.

Mas um aspecto importante na fala do coordenador de área da CAPES foi a necessidade de aproximação dos PPGs com as indústrias e centros de pesquisas regionais. Esta visão vai ao encontro de ideias não tão recentes da SBQ e de muitos pesquisadores da nossa comunidade. Não seria isto certamente vital para acelerar as necessidades de um país carente em tantos aspectos como o Brasil? Após algumas discussões no workshop de PG, ficou outra pergunta: como a SBQ poderia atuar na aproximação dos coordenadores dos PPGs (e, certamente, da comunidade) com os órgãos que têm os diagnósticos da indústria química brasileira, os aspectos e as necessidades regionais, visando um futuro sustentável?

A resposta para esse desafio virá da concretização do acordo recém assinado entre a SBQ e a Associação Brasileira das Indústrias Químicas (ABIQUIM), consagrado numa importante cerimônia realizada em 06 de novembro de 2025, em São Paulo.

A aproximação da indústria com a pós-graduação está em consonância com a portaria da CAPES nº 221, publicada em 19 de agosto de 2025, que altera os regulamentos dos programas Demanda Social - DS, Suporte às Instituições
Comunitárias de Educação Superior - PROSUC, Suporte às Instituições de Ensino Particulares - PROSUP e Programa de Excelência Acadêmica – PROEX, para aumentar o escopo do estágio em docência obrigatório para os bolsistas de mestrado e doutorado. O(A) discente poderá ser dispensado(a) do estágio em docência previsto caso realize estágio ou formação supervisionada em empresas, desde que a atividade desenvolvida seja compatível com a área de pesquisa do(a) pós-graduando(a).

Neste acordo estão sendo seladas ações para uma ampla aproximação entre os dois órgãos – SBQ e ABIQUIM, em que a pós-graduação brasileira terá lugar de destaque. No próximo workshop dos PPGs da SBQ, em 2026, receberemos um representante  a ABIQUIM que trará novos ares a este assunto. Reservem suas perguntas!

Claudia M. de Rezende

Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Química, CEP 21941-909, Rio de Janeiro-RJ, Brasil

https://orcid.org/0000-0003-2710-5702

Sabrina B. Ferreira

Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Química, CEP 21941-909, Rio de Janeiro-RJ, Brasil

https://orcid.org/0000-0002-5363-0888

William R. Rocha

Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Química, CEP 31270-901, Belo Horizonte-MG, Brasil

https://orcid.org/0000-0002-0025-2158

Maria Helena Araujo

Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Química, CEP 31270-901, Belo Horizonte-MG, Brasil

https://orcid.org/0000-0002-2609-0281

Paulo Cesar de Sousa Filho

Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Química, CEP 13083-970, Campinas-SP, Brasil

https://orcid.org/0000-0002-9210-4506

Link- Licença CC-BY

Esta obra é de autoria de Cesar Revoredo (RN), “Procissão Noturna” (88), óleo s/ tela. 50 cm x 40 cm