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COMPARTILHANDO REFLEXÕES

QN, vol. 49, 2026

Desde o início da década de 1980 (no século passado!) tenho tido o privilégio de atuar em universidades como graduando, pós-graduando, pós-doutorando e docente. É incrível como o tempo voa. Gostaria aqui de compartilhar algumas reflexões olhando no retrovisor, mas também mirando o horizonte.

Os anos de graduação são desafiadores. Um novo mundo se descortina pleno de possibilidades e desafios. Distanciamento físico da família, novas amizades, novas responsabilidades e muita aprendizagem. Aprofunda-se o amadurecimento do futuro adulto, livre, independente e com formação abrangente para atuar em um mundo cada vez mais dinâmico e, atualmente, cada vez mais virtual. Entre as muitas boas lembranças, permanecem as sólidas amizades e o exemplo de docentes talentosos, que nos inspiram e nos fazem querer mais.

O apelo da pós-graduação era e permanece forte na área de química. A sedução da busca pelo conhecimento e a necessidade do contínuo aprofundamento de vivências teóricas e experimentais exercem uma forte atração e a formação nos cursos de mestrado e doutorado (e cada vez mais as possibilidades de doutorado direto) segue sendo um caminho natural. Novamente o mundo se alarga. Novas instituições, novas amizades e convívio cotidiano com profissionais cada vez mais especializados. Todo esse esforço exige empenho elevado. Dedicação plena implica sistemas de financiamento inclusivos que possibilitem seguir evoluindo em nosso amadurecimento e, consequentemente, em nossa capacidade de autossustentação.

Então, chega o momento do pós-doutorado. Onde? Em qual área? É importante seguir expandindo nossos horizontes e aprofundando a desejável internacionalização. Entendamos que países têm fronteiras, porém conhecimentos não têm divisas. Aprofundemos e ganhemos novas habilidades, compartilhemos nossa cultura e incorporemos outras culturas.

Entre os muitos desafios desses anos iniciais de formação destaco, a capacidade de organização do tempo na execução de multitarefas. Química é uma ciência exigente em sua amplitude e profundidade. Aulas teóricas, trabalho experimental, provas, relatórios, seminários, reuniões de grupo, participação em eventos científicos, tais como as reuniões anuais da SBQ tão cruciais em um país de dimensões continentais, e tantas outras oportunidades típicas do ambiente acadêmico universitário.

Passados esses anos iniciais de formação, inicia-se a vida profissional. No meu caso, optei por iniciar a carreira acadêmica. Redundante salientar que o trabalho acadêmico é altamente demandante. Ensino, pesquisa, extensão e gestão. Sim, o volume de tarefas aumentará. Sim, a vida adulta também trará outras demandas. Sim, tudo ao mesmo tempo agora. E se incluirmos filho(a)s nessa agenda? Tudo se tornará ainda mais divertido, formativo e desafiador! Lembram-se da multiplicidade de tarefas nos anos de graduação? Pois é, cada vez mais será crucial exercer a capacidade de priorização e aprimorar o filtro de seleção. Selecionemos as tarefas do dia e as resolvamos. Concentremo-nos no que é primordial e ajustemos o foco.

Ministrar aulas na graduação e na pós-graduação é uma tarefa altamente demandante. É interessante que não foquemos apenas no desafio, mas também nos benefícios decorrentes. Explicar algo de forma clara a alguém envolve um nível de assimilação que aprofunda a compreensão e gera novas questões e aprendizagens. Conviver com jovens em ambientes acadêmicos é uma oportunidade de rejuvenescimento e atualização sobre as novas tendências. Confesso que na minha idade algumas dessas tendências são assustadoras. Por outro lado, as tecnologias digitais trazem oportunidades relevantes para a tão necessária divulgação científica.

Universidades preservam, alteram e geram conhecimentos. As atividades de pesquisa são uma fonte permanente de aprendizagens e interações em equipes que aliviam a carga de nosso cotidiano. Alguns momentos difíceis, porém superáveis pelos muitos momentos de prazer.

Extensão tem muitas vertentes, que vão desde o compartilhamento de rotinas bem conhecidas até a geração de novos temas de pesquisa em função das parcerias e
demandas. Entre outros aspectos, essas parcerias possibilitam o treinamento de equipes, a busca de linguagens comuns e metas que eliminem preconceitos e trazem possibilidades de melhoria de processos com decorrências benéficas à sociedade e ao meio ambiente. Academias e empresas atuando juntas são fortes motores de desenvolvimento.

Gestão envolve outras tantas demandas e também se apresenta em muitas modalidades. Particularmente, procurei priorizar aquelas que não gerassem poderes, mas trouxessem saberes.

Refletindo em termos gerais, sugeriria que sejamos abertos às oportunidades e respeitemos as tradições acadêmicas em cada uma delas. Órgãos institucionais, sociedades científicas e seus periódicos,1,2 agências de fomento, editorias e tantas outras atividades são fontes ricas de ensinamentos. Representemos bem a comunidade acadêmica, mas, como me alertou um parceiro mais experiente, não percamos de vista que foi o trabalho acadêmico que nos abriu portas. Colaboremos, aprendamos e retornemos ao dia a dia de ensino, pesquisa e a fundamental formação de recursos humanos.

Olhando retrospectivamente, quais são as aprendizagens essenciais? Como é inerente aos questionamentos mais amplos, cada um de nós terá respostas diferentes. Arrisco-me a destacar alguns pontos que me parecem cruciais: (i) a contínua e eterna busca por aprendizagens relevantes. Cabe a cada um em sua área de atuação desvendar o que é relevante. Certamente, contribuir para o avanço do conhecimento e de tecnologias é parte da resposta; (ii) a necessidade de permanente atualização. O mundo e a vida são rapidamente mutáveis. Cabe a nós a flexibilidade, o exercício de adaptação e a contínua busca pela inovação; (iii) a capacidade de trabalhar em equipes interdisciplinares. Questões amplas transcendem as fronteiras de cada área. Equipes interdisciplinares possibilitam olhares complementares e expandem a criatividade coletiva. Exercitemos a compreensão de que a evolução buscada é decorrente da contribuição de todos e de cada um; (iv) resiliência, persistência e paciência são virtudes importantes. É normal que projetos maiores envolvam idas e vindas. É normal que certas metas não sejam atingidas na primeira tentativa - Quem não teve manuscritos recusados para publicação? Quem não teve financiamentos denegados? Quem não esperou anos por aquele instrumento tão necessário? (v) A reflexão sobre o que lhe parece crucial no seu contexto é recomendável.

O que une todas essas etapas ao longo da trajetória? Minha visão é que o elo de nossa trajetória profissional e de vida é a capacidade de aprendizagem. Aprender a aprender. Entender o que é preciso aprender. Aprender a compartilhar. Entender quais são as demandas de cada fase profissional e da vida. A busca da evolução pessoal e social é uma necessidade permanente. Abrir-se às novas possibilidades de interações em sala de aula, tais como a sala de aula invertida (flipped classroom), a aprendizagem baseada em problemas e as oportunidades geradas pelo mundo digital e inteligência artificial. O que faremos e até onde iremos com a inteligência artificial é uma das questões mais prementes que nortearão os caminhos no século XXI.

Lembro-me do questionamento a um profissional bem-sucedido sobre o porquê seguia trabalhando com tanto afinco. A resposta é que via “o trabalho e a vida como experiências de aprendizagem”. Penso que faz pleno sentido.

Finalmente, entendo que é importante nunca perder a dimensão do prazer. A alegria proporcionada pela aprendizagem, a alegria proporcionada pelo compartilhamento de conhecimentos, a alegria de lutar por um mundo no qual a educação abre perspectivas de uma sociedade amplamente inclusiva, em todos seus múltiplos sentidos e carências, e com oportunidades iguais, que possibilite que cada ser humano evolua conforme suas imensas capacidades e aspirações.

Joaquim de Araújo Nóbregaa

aDepartamento de Química, Universidade Federal de São Carlos, 13565-905 São Carlos – SP, Brasil

https://orcid.org/0000-0001-9134-9547

Referências

  1. Montagner, C. C.; do Amaral, C. D. B.; Andrade, G. F. S.; Rebouças, J. S.; de Souza, R. O. M. A.; Quim. Nova 2026, 49, e-20260082. [Crossref]
  2. Pilli, R. A.; J. Braz. Chem. Soc. 2025, 36, e-20250147. [Crossref]

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